Entenda, de forma técnica e direta, como a corrosão das armaduras se inicia, quais as causas mais comuns, consequências para a estrutura, as normas que orientam as melhores práticas e principalmente o que pode ser feito para prevenir e monitorar esse processo que compromete a durabilidade das obras.
O que é corrosão de armadura?
A corrosão da armadura é um processo eletroquímico que degrada o aço embutido no concreto, causada pela ação de agentes agressivos como umidade, oxigênio e cloretos, que ultrapassam a proteção do cobrimento de concreto. Quando o aço coroe, os produtos de corrosão (ferrugem) ocupam volume muito maior que o aço original, gerando tensões internas que provocam fissuras, desplacamento do cobrimento e perda de aderência entre aço e concreto. Na prática, o problema começa silencioso e só é percebido quando os sinais visuais aparecem e muitas vezes já é tarde para soluções econômicas.
Figura 1: Doenças do concreto armado

Fonte: Eng. Matheus Borges
Principais causas
- Carbonatação: CO₂ penetra nos poros do concreto e reduz o pH, eliminando a camada passivadora do aço.
- Penetração de cloretos: Íons cloreto (maresia, degelo, produtos químicos) originam corrosão localizada (pitting).
- Umidade e infiltrações: Água em contato contínuo com a armadura acelera o processo eletroquímico.
- Falhas construtivas: Cobrimento insuficiente, má compactação, fissuras e execução inadequada facilitam o acesso de agentes agressivos.
Efeitos na estrutura
Os efeitos da corrosão vão além do aspecto estético: impactam a segurança estrutural. Entre os sinais mais recorrentes estão fissuras longitudinais, desplacamento do concreto, perda de seção do aço e redução da capacidade resistente da estrutura.
Desplacamento e exposição de armadura: indicativos claros de corrosão avançada.
O que dizem as normas
No Brasil, a ABNT NBR 6118:2014 é a referência central para projeto de estruturas de concreto, tratando de cobrimento mínimo, classes de agressividade ambiental e requisitos de durabilidade. Outras normas complementares são a NBR 12655:2015 (controle do concreto) e a NBR 14931:2004 (execução). Respeitar essas normas é o primeiro passo para estruturas duráveis.
O cobrimento mínimo do aço varia conforme a criticidade ambiental (ambientes internos, externos, costeiros). A imagem a seguir determina o cobrimento para estruturas de concreto armado com base na classe de agressividade ambiental, de acordo com a NBR 6118 o cobrimento para estruturas de concreto armado, deve a seguir:
Figura 2: O cobrimento para estruturas de concreto armado.
Fonte: NBR 6118 (2014)
Estratégias de prevenção
Prevenir é sempre mais eficiente e econômico do que reparar. As principais medidas são:
- Concreto de baixa permeabilidade: controlar relação água/cimento, utilizar aditivos e materiais poupa-poros.
- Cobrimento adequado: observar as tabelas da NBR 6118 conforme ambiente.
- Inibidores de corrosão e aditivos: solução para cenários específicos.
- Revestimentos e proteções das barras: epóxi, galvanização ou bainhas protetoras onde aplicável.
- Manutenção e inspeções periódicas: identificação precoce de infiltrações e fissuras evita avanço do processo.
Boas práticas: do projeto à manutenção.
Monitoramento e diagnóstico
Existem métodos não-destrutivos e laboratoriais para detectar e quantificar corrosão:
- Ensaio de resistividade elétrica do concreto;
- Potencial de corrosão (half-cell potential);
- Profundidade de carbonatação (fenolftaleína);
- Extração de testemunhos e ensaios laboratoriais para teor de cloretos.
Uma estratégia de monitoramento combinada (visual + instrumentação) oferece maior segurança para tomada de decisão sobre intervenções.
Conclusão
A corrosão de armadura é um problema que, quando negligenciado, pode evoluir silenciosamente até o colapso estrutural. Ela representa uma das principais causas de deterioração e redução da vida útil das estruturas de concreto armado no Brasil e no mundo.
No entanto, trata-se de um fenômeno previsível e controlável. A adoção de boas práticas construtivas, o uso de materiais adequados e o cumprimento rigoroso das normas técnicas especialmente a ABNT NBR 6118 são fundamentais para prolongar a durabilidade das estruturas.
Mais do que corrigir danos, prevenir é a solução mais econômica e eficiente. A corrosão de armadura não deve ser vista como um problema inevitável, mas como um alerta de que a engenharia precisa ser executada com técnica, planejamento e manutenção contínua.
Aspectos-chave para gestores e engenheiros:
- Incorpore requisitos de durabilidade desde o projeto (escolha de materiais, cobrimento e especificações de concretagem).
- Exija controle tecnológico do concreto em obra (NBR 12655).
- Implemente planos de inspeção periódica e monitoramento (ensaios de potencial e resistividade).
- Priorize a prevenção: intervenções precoces são mais simples e econômicas do que reparos corretivos complexos.
O concreto protege o aço, mas a durabilidade depende de projeto, execução e manutenção. Tratar a corrosão como uma questão contínua é a melhor estratégia para preservar estruturas por décadas.
Referências (ABNT)
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6118: Projeto de Estruturas de Concreto — Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2014.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 12655: Concreto de Cimento Portland — Preparo, Controle e Recebimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2015.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14931: Execução de Estruturas de Concreto — Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2004.
- MEHTA, P. K.; MONTEIRO, P. J. M. Concreto: Microestrutura, Propriedades e Materiais. 3. ed. São Paulo: IBRACON, 2014.
- HELENE, Paulo R. L. Corrosão em Armaduras para Concreto Armado. São Paulo: PINI, 1993.